A cena é de total implausibilidade. Jesus caminhando pelas ruas estreitas e sinuosas de Jerusalém, sendo acompanhado por uma grande multidão que gritava e se acotovelava, lutando por um lugar melhor para acompanhar o cortejo.
Jesus segue carregando a cruz, uma pesada cruz de madeira. Havia passado a noite anterior preso. Depois de interrogado por Pilatos, foi duramente castigado com açoites e, por fim, lhe puseram uma coroa de espinhos na cabeça. Foi condenado à morte – morte violenta, sobre a cruz.
Jesus segue seu caminho, hoje conhecido com “via crucis”. Os soldados o acompanham, exigindo que ande mais rápido, e para isto usam novamente o chicote. A atitude faz parte da estupidez dos homens, que até hoje continuam achando que as pessoas trabalham melhor sob pressão do que num ambiente mais humano e fraterno.
O caminho é árduo. Jesus encontra-se cansado e ferido, já não consegue caminhar, seus pés vacilam e seu corpo não obedece mais. Da sua testa escorre o sangue provocado pelos ferimentos dos espinhos, suas costas estão marcadas pelos vergões das chicotadas.
Anda arrastando a pesada cruz, ouvindo os gritos e recebendo as cusparadas da multidão ensandecida. Encontra-se com as poucas roupas que lhe sobraram, seguindo seu caminho em direção a um pequeno monte fora da cidade, onde seria finalmente crucificado.
No meio deste caminho, sofrendo toda sorte de humilhação a escárnio, ferido e desfigurado, Jesus vê um amigo, alguém que o tinha acompanhado em alguma de suas andanças, quem sabe, alguém que tinha sido ajudado ou curado por ele.
O amigo, um pouco desconfiado, aproxima-se, mas os gritos da multidão o impedem de ouvir o que o Mestre, com sua voz já fraca, dizia.
Ele aproxima-se mais um pouco, estica a cabeça com o ouvido voltado para a direção de Jesus e ouve a seguinte afirmação: “Olha, no mundo você vai encontrar muitas aflições, mas não se preocupe, fique firme, porque eu venci o mundo”.
O amigo olha para um lado, para o outro, solta um sorriso sem graça fingindo que entendeu, balança a cabeça agradecendo com cara de espanto e logo desaparece, engolido pela multidão.
“Venceu o quê?”, pensa ele. “Quem, num estado destes, pode dizer que venceu alguma coisa? O pobre coitado mal consegue andar, tem o corpo todo ferido, cercado por uma multidão ávida para vê-lo pendurado na cruz, sozinho, venceu o quê?”
A cena pode não ter sido exatamente essa, mas foi num contexto assim, no chamado “sermão da despedida”, que ouvimos Jesus afirmar para seus discípulos sua vitória sobre o mundo, procurando animá-los e encorajá-los na caminhada da fé. Ele afirma sua vitória no caminho para a cruz.
Como alguém, em seu juízo normal, poderia acreditar nesta afirmação de Jesus? Como alguém que caminha sozinho para a morte, condenado à pena mais violenta e humilhante – a morte na cruz -, com o corpo todo tomado de sangue, consegue afirmar que podemos ter ânimo, coragem, porque ele venceu?
No entanto, o que Jesus estava afirmando era a mais absoluta verdade. Se houvesse mais tempo, ele chamaria seu amigo de volta e lhe diria: “Sabe, o mundo tentou me seduzir com o poder, quis fazer de mim um rei, me cobrir de glória e me dar um trono, mas não conseguiu, eu venci o mundo. Na verdade, o meu reino não é deste mundo.
Confesso que foi difícil resistir, as tentações foram grandes e insistentes, muitas vezes parecia ser um caminho mais fácil. O poder nos dá a sensação de independência, controle e domínio; com ele parece mais fácil resolver os problemas do mundo como a fome, as injustiças, a violência, o desemprego.
Na maioria das vezes, o desejamos com as melhores das intenções; mas para mantê-lo, tornamo-nos, inevitavelmente, egoístas e independentes. Mas eu permaneci ao lado do meu Pai, fazendo da vontade dele minha comida e bebida todos os dias; ao invés do poder, escolhi a submissão; ao invés do domínio, escolhi o amor; ao invés da solução fácil e mágica, escolhi a fraqueza da humanidade. O mundo tentou me seduzir com a glória do poder, mas eu venci o mundo.
O mundo tentou também plantar em mim o ódio e a amargura. Foram muitas pessoas que falaram mal contra mim, outros me traíram e abandonaram, foram vários os momentos em que me vi muito só, mas o mundo, uma vez mais, não conseguiu, eu venci o mundo.
Amei todos os que vieram a mim, todos, inclusive aqueles que teciam o mal, que arquitetavam em seus corações os planos mais perversos. Ricos e pobres, homens e mulheres, velhos e crianças,romanos, judeus e gentios, todos foram amados indiscriminadamente.
Amei sem jamais ser falso. Eu sei que às vezes é mais fácil ignorar, fingir que não é com a gente, ser indiferente ou, em situações extremas, preferimos usar as mesmas armas da violência, da astúcia e do engano. Muita gente acha que sou ingênuo, que não entendo a maldade do mundo, que não percebo a falsidade dos meus amigos.
A verdade é que eu a conheço muito bem, mas optei por um outro caminho, o da reconciliação e da paz. O mundo tentou me tirar deste caminho ao me provocar o ódio e a vingança, mas não conseguiu, eu venci o mundo.
Sabe, o mundo quis também fazer de mim um grande líder, alguém cuja importância e brilho iria ofuscar a glória do Pai, mas não conseguiu, eu venci o mundo. Em nenhum momento pretendi tornar-me o centro, seguir meu próprio caminho, ter minha autonomia. Os meus olhos estiveram durante toda a minha vida voltados para um único lugar, o trono do meu Pai.
Para isto, assumi a forma de servo. Fui humilhado, ultrajado e ferido, mas permaneci obediente até hoje e sigo obediente até a minha morte. Ser um líder aclamado e reconhecido é um desejo de todo ser humano. Quando as pessoas que me seguiam viram alguns milagres que realizei em nome do meu Pai, quiseram imediatamente me transformar num líder, mas eu preferi continuar sendo um servo.
Algumas vezes procurei até me afastar da multidão, porque percebia que não me buscavam por causa da reconciliação e perdão, mas por causa dos meus milagres, dos meus poderes. Estavam mais interessadas em si mesmas do que no reino do meu Pai. Foi difícil. A pressão de uma multidão carente é uma arma muito sutil do mundo, mas não conseguiram, continuei meu caminho sendo apenas um servo, eu venci o mundo”.
Aquela conversa poderia continuar por um longo tempo. Jesus poderia lembrar-lhe da mansidão, da simplicidade, da justiça, da santidade e de muitas outras virtudes que terminariam por levá-lo ao Calvário. Poderia também contar da conversa que havia tido com Pilatos no pretório, onde ele afirma sua autoridade e poder para condenar ou absolver. Mas Jesus continua fiel ao Reino de seu Pai, que não pertence a este mundo. Jesus venceu o mundo.
Era impossível reconhecer naquele condenado fraco e ensangüentado um vencedor. A multidão à sua volta, eufórica com aquele espetáculo, via ali um pobre coitado, um perdedor vencido pela fúria e loucura humanas
Jesus venceu e encoraja seus discípulos, dizendo: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” O mundo realmente não conseguiu vencê-lo, embora, por um momento, tenha achado que havia conseguido – afinal, ele estava a caminho do Calvário.
Jesus morreu desacreditado pelos homens e líderes religiosos. O homem que o mandou para a cruz era por certo um político influente, ambicioso e poderoso, um vitorioso. Por um momento, o mundo parou para ver a derrota do Filho de Deus, mas coube à ressurreição demonstrar quão gloriosamente nosso Senhor venceu. Foi a vitória da justiça, do amor, da paz, do perdão e da reconciliação que derrotou a arrogância e o pecado humano.
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