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quinta-feira, 17 de março de 2011

RELIGIÃO E MODERNIDADE


O falar sobre a modernidade em relação à religião talvez já esteja ultrapassado. As coisas estão acontecendo e mudando, nos tempos presentes, em uma velocidade incrível. Novas descobertas são anunciadas em todos os campos, novos conceitos surgem em decorrência dessas descobertas, de sorte que já não se fala em modernidade, mas em pós-modernidade.

A humanidade já passou pela época do iluminismo, do racionalismo, e vive hoje os tempos do relativismo. E esse pensamento relativista, nestes tempos pós-modernos, tem envolvido, também, o campo religioso.

Façamos uma reflexão, por exemplo, sobre o pecado.

Uma das definições de pecado é “ qualquer falta de conformidade com a Lei de Deus, ou a transgressão de qualquer lei por Ele dada como regra à criatura racional” (1 João 3:4; Gálatas 3:10-12; Tiago 4:17). Wayne Grudem, em sua obra TEOLOGIA SISTEMÁTICA, escreve que “pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus, seja em ato, seja em atitude, seja em natureza”. R.C. Sproul diz, em VERDADES ESSENCIAIS DA FÉ CRISTÃ, que pecado é errar o alvo, e que “errar o alvo” em termos bíblicos, é não acertar o alvo, que são as normas de Deus.

Em qualquer caso, a ênfase, no que tange ao pecado, está em não estar de conformidade com a Lei de Deus. Isso pressupõe uma autoridade legisladora, DEUS, o que já causa uma dificuldade quando tratamos do assunto aos incrédulos, pois, num mundo onde as verdades bíblicas estão sendo relativizadas, e até mesmo negadas, a idéia de uma autoridade divina que legisla não faz o menor sentido para a maioria das pessoas.

Então, neste contexto dos tempo pós-modernos em que vivemos, mesmo entre os cristãos há uma tendência para relativizar aquele “pecadozinho” inocente. Deus não se importaria com uma tolice momentânea, sem importância. Tudo é relativo, dizem.

Nessa ótica, nem mesmo matar, mentir ou roubar podem ser considerados como pecado. Por exemplo, todo mundo concorda que matar é pecado, mas quase todos também concordam que matar aquele monstro estuprador e assassino não é pecado, e sim justiça. Todo mundo está de acordo em que mentir é pecado, mas muita gente acha que uma mentirinha para garantir ou conseguir um emprego não é pecado, e sim uma necessidade. Todo mundo concorda que roubar é pecado, mas há pessoas que pensam que sonegar imposto ao governo não é pecado, e vivem pedindo a médicos e dentistas recibos “frios” para dedução na declaração de renda, esquecendo-se do ensinamento de Jesus aos fariseus:” daí a César o que é de César; e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Para muita gente uma mentirinha aqui, outra acolá, uma aventurazinha de vez em quando, nada disso é relevante. Pecado, dizem, é deixar criancinha morrendo de fome nas ruas, é a injustiça social, é o abandono do homem do campo e outros males que afligem a sociedade.

É óbvio que tudo isso é conseqüência do pecado que domina o mundo, mas nada disso serve de desculpa para que nossos pecadozinhos sejam relativizados. Inclusive, esses mesmo que vivem condenando o abandono das criancinhas de rua são , muitas vezes, os mesmos que, quando alguém bate à sua porta pedindo um restinho de comida ou um simples copo d`água, dizem não, por preguiça de se levantar de uma rede após a refeição ou por medo de que o pedinte seja um assaltante.

Muitas vezes matamos pessoas com falsidades, fofocas, falsos testemunhos, contendas murmurações, etc. Matamos não o corpo físico, mas a dignidade, a esperança, o respeito, a alegria, o entusiasmo, a fé. E essas coisas, às vezes, doem mais que a dor na carne.

Pecado é, também, não ser submisso à soberania de Deus. Mas, o que fazer, se até mesmo a existência de Deus está sendo questionada e até negada nestes tempos pós-modernistas ?

A revista SELEÇÕES Reader`s Digest, edição de abril/2002, traz um artigo intitulado POR QUE CREMOS EM DEUS?, no qual o cientista Eugene d`Aquili, já falecido, diz que, através de pesquisas, chegou à conclusão de que “Deus não passa de uma percepção gerada pelo cérebro ou que a fiação do cérebro foi projetada para experimentar a realidade de Deus”. Em outras palavras, ao nos defrontarmos com um problema cuja solução não está em nós, o cerébro cria uma percepção de Deus para que a solução do problema seja encontrada. Satisfeita tal necessidade, cessa também a percepção de Deus.

Não é apenas o conceito sobre Deus que está sendo questionado nestes dias pós-modernos; Sua Palavra, as Sagradas Escrituras, também é questionada por alguns teólogos “avançados”. A Bíblia, para muitos “cristãos”, já não é tida como sendo a Palavra de Deus, e sim, como contendo a Palavra de Deus e dos homens. Dizem que “nem tudo que está na Bíblia é palavra de Deus”. Ora, sabemos que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:16-17).

Há textos nos quais Deus dita o que Ele quer que seja transmitido ao povo. Nesses testos encontramos a expressão: assim diz o Senhor; em outros os escritores foram inspirados pelo Espírito de Deus e, mesmo com seus estilos literários respeitados, escreveram , com suas próprias palavras, o que Deus queria transmitir ao seu povo.

O problema é que, nestes tempos pós-modernistas, não se admite a verdade absoluta, mas a verdade é relativa. Cada um tem sua verdade.O que alguém concebe como verdade vai de encontro à verdade de outro. Nem mesmo Deus é verdade absoluta. O que é certo para uns não o é para outros. E a sociedade pós-modernista , inclusive muitos cristãos, vai, paulatinamente, se adaptando aos novos tempos.

Por isso o apóstolo Paulo, nos primórdios da igreja, já exortava os cristão de Roma a não se conformarem com o século em que viviam, mas que se transformassem pela renovação de suas mentes (Romanos 12:2). Nesse caso, a palavra conformar-se não quer dizer “resignar-se”, e sim, que os cristão não deviam estar de conformidade, não deviam se amoldar às coisas daquele tempo.
De igual modo, os cristão dos tempos pós-modernos não devem se amoldar à sociedade apóstata de nossos dias. A igreja deve influenciar a sociedade, e não, ser por ela influenciada. Isso acontece, de forma negativa, quando conceitos, costumes, hábitos, penetram na igreja de forma sutil e sorrateira, quase que imperceptivelmente. Os que resistem às inovações são qualificados como “ultrapassados, quadrados, simplórios, etc.”.

Nestes tempos de pós-modernismo não se permite, em razão de leis do governo, que missionários entrem em aldeias indígenas para evangelizar. A alegação governamental é de que a cultura indígena deve ser preservada. Para os defensores desse princípio é preferível, então, que o índio continue sendo um pagão. Todavia, não se preocupam com outros tipos de intromissão na cultura indígena, oriundos da civilização branca, e que têm pervertido os hábitos daqueles nossos irmãos, especialmente os transmitidos através da televisão.

Digno de nota, também, nesse contexto do pós-modernismo, é o que diz respeito ao trabalho de evangelização realizado pelos cristãos entre os homossexuais. Agora, pessoas que discordam , de público, de uma orientação sexual diferente da hetero, correm o risco de ter seu direito à manifestação de pensamento cerceado sob a ameaça de constrangimento ou, pior ainda, intolerância.

Trata-se de uma questão delicada, de modo especial para os grupos cristãos que não concordam com o homossexualismo, a ponto de considerá-lo como abominação contra Deus. A questão, que vem ganhando terreno de forma ampla no âmbito mundial, atingiu seu ponto máximo no início deste ano de 2004, quando foi votada na 60ª. Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, Suíça, a Resolução Sobre Direitos Humanos e Orientação Sexual.

O documento dá destaque ao princípio de inadmissibilidade de discriminação e expressa preocupação diante das violações de direitos humanos que ocorrem contra pessoas com base na sua orientação sexual. A proposta, apresentada pelo Brasil – isso mesmo ! – durante a última sessão da Comissão, ano passado, estabelece que a diversidade sexual é parte integral dos direitos humanos, refletidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em outras palavras isso significa que ninguém, inclusive a igreja e psicólogos, tem o direito de tentar a reorientação sexual de uma pessoa homossexual. Há países onde o casamento entre gays já é autorizado, onde casais gays já podem adotar filhos, etc. A força gay está em evidência nestes dias pós-modernistas, e ser contra essas coisas é ser intolerante ou não respeitar os direitos humanos.

Nesse confronto entre o pós-modernismo e a fé cristã surge um novo tipo de crente: o crente ateu. Isso pode parecer um paradoxo, mas é verdade. O crente ateu crê em Deus, não apresenta nenhuma dúvida quanto aos mistérios da fé, nem em relação aos grandes temas existenciais. Ele vai à igreja, canta, ora, e chega até a contribuir. É religioso e gosta de conversar sobre os temas da religião. Contudo, a relevância de Cristo, sua morte e ressurreição para a vida e a devoção pessoal é praticamente nula. São “ateus crédulos”. O ateu pós-modernista não é mais somente aquele que não crê, mas aquele para quem Deus não é relevante.

Este é um novo quadro que começa a ser pintado nas igrejas cristãs. Desaparecem de cena os grandes heróis e mártires da fé do passado e entram os apáticos e acomodados cristãos modernos. Aqueles cristãos que deram suas vidas à causa do Evangelho fazem parte de uma lembrança remota que às vezes chega a nos inspirar.

Coisas como o ardente desejo de ver alguém convertido a Cristo, o anseio de vermos a volta do Senhor e de ver a restauração da justiça e a ordem da criação ficaram para trás. O discipulado com todas as suas implicações são coisas que não mais atraem.

A preocupação com a moral e a ética, com o bom testemunho, com a vida santa e reta não nos perturba mais – somos pós-modernos, aprendemos a respeitar o espaço dos outros, a verdade relativa dos outros. Afinal, cada cabeça é um mundo; cada um tem sua verdade.

Nos tempos pós-modernistas a irrelevância de Deus para a vida é intensificada pela cultura tecnocrática. Há técnicas para tudo: para ter um matrimônio perfeito, criar filhos felizes e obedientes,obter plena satisfação sexual no casamento e muitos outros “como fazer” que enchem as prateleiras das livrarias.

A sociedade pós-modernista vem criando os métodos e as técnicas que reduzem nossa necessidade de Deus, a dependência d`Ele e a relevância da comunhão com Ele. Tornamo-nos mais dependentes de nós mesmos do que de Deus, acreditamos mais na eficiência do que na graça, buscamos mais a competição do que a unção, cremos mais na propaganda do que no poder do Evangelho, que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Romanos l:16).

Em tempos pós-modernistas, mesmo entre alguns segmentos religiosos, é antiquado falar sobre pecado, condenação, inferno, arrebatamento da igreja, a volta de Jesus Cristo, anjos, demônios, milagres, bom samaritano, etc. O homem passou a ser o centro da religião; ele que foi criado para o louvor da glória de Deus. Enquanto isso Deus passou a ser apenas como uma espécie de “gênio da lâmpada maravilhosa”, 24 horas por dia à disposição do homem, atendendo todas as suas necessidades. Coisas da pós-modernidade.

O que virá após o pós-modernismo? O mundo ainda alcançará esse tempo? A iniqüidade tem se multiplicado, o amor tem esfriado em quase todos, conforme previsto por Jesus (Mateus 24:12). Cresce a “geração Tomé”, ou seja, aqueles que querem ver para crer; o crer para ver passou a ser utopia. Vivemos um tempo em que poucos sabem o que é ser solidário e para muitos o que vale é o “cada-um-por-si”.

Porventura, quando o Filho do Homem voltar achará fé na Terra? (Lucas 18:8).

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